Além de tudo, sou mulher!

Nós Mulheres com deficiência somos vistas como “coitadinhas” ou “ceguinha”, “surdinha”, “alejadinha”, etc. Nos atribuem esses adjetivos no diminutivo e esquecem-se que também somos mulheres.

Quando você anda bem arrumada, toda maquiada, bem vestida e toda combinando, as pessoas te olham com espanto, com um olhar de confusão. Tem pessoas que falam “ai que bom que sua mãe te arruma”, .

Esta semana vivi um exemplo bem claro desse preconceito enrustido, estava em uma loja de roupas com minha sogra, eu passando a mão nos vestidos e minha sogra vendo as roupas para ela , achei um macacão e gostei, coloquei em frente ao corpo para ver se ficava bom e a vendedora perguntou “nossa você enxerga?” eu falei que não, ela ficou surpresa e custou à acreditar. Então perguntei quais eram as cores, as estampas, tamanhos, escolhi aquelas que eu queria e fiquei imaginando o que se passa na cabeça de alguém depois de uma descoberta tão chocante.

Tenho minhas limitações, é claro, mas acima de tudo sou mulher e tenho meus próprios gostos, uso coisas que me fazem sentir bem. Como toda mulher, gosto de pedir opinião do marido, das amigas e por que não da mãe? Só que a minha opinião é a mais importante, a minha deficiência não me impede de andar bem arrumada!

Você não se sente um ovo?

– Você não se sente um ovo? Perguntou uma pessoa ontem na faculdade enquanto me ajudava a descer as escadas para ir embora.

– Um ovo? Perguntei em um misto de curiosidade e surpreso com a pergunta para lá de inesperada.

– Sim, um ovo! Confirmou ele, explicando com a seguinte reflexão: – É que já faz algum tempo que observo como as pessoas ajudam vocês (Pessoas cegas), elas parecem que estão carregando ovos e cuidam de vocês de um jeito que até parece que tem medo que vocês quebrem.

A pergunta inesperada surpreende pela consciência de quem fez a reflexão. Leva a pensar que alguém já começou a ver erros na forma como a sociedade enxerga as pessoas com deficiência.

Estes são os primeiros passos para entender que somos capazes de muitas coisas, se estamos trabalhando, passeando ou tomando uma no bar é por quê queremos estar ali!

Por que ter dó de uma pessoa pela deficiência que ela tem? É importante encarar a deficiência como uma característica da pessoa, já que ninguém tem dó de uma pessoa de cabelos claros por que ela tem uma deficiência de pigmentação nos cabelos.

As pessoas tendem a ver alguém com deficiência como fraco, incapaz, e frequentemente subestimam sua capacidade intelectual, tratando como crianças pessoas que tem potencial para ensinar e frequentemente ensinam! Algumas destas pessoas são professores universitários renomados, mestres nesta ou naquela disciplina, cientistas fantásticos, mas aos olhos de alguns cidadãos, são só coitados.

Tem também o oposto, que acha alguém com deficiência um herói! A pessoa é fantástica, porque faz aquilo que todo mundo faz, já que uma pessoa com deficiência não deveria conseguir tomar seu banho, varrer sua casa ou lavar sua louça depois de comer, só por que “isto é uma tarefa extremamente difícil! “.

Mesmo supervalorizando tarefas simples há uma discriminação negativa da pessoa com deficiência, por que reafirma que não é possível que uma pessoa com deficiência consiga fazer algo minimamente produtivo.

Só teremos uma sociedade mais justa quando nossa igualdade não for medida pelas nossas diferenças.

Mamãe, quero ganhar um tablet!

Está chegando o dia das crianças e muitos pais estão de cabelo em pé com o pedido da criança com deficiência visual! E essa agora: meu filho quer um tablete, o que faço?
Esta é uma pergunta bem normal. Muitas pessoas ainda não sabem que vários tabletes já vêm com acessibilidade da fábrica! O problema, na verdade, é que as interfaces não são muito amigáveis para as crianças com deficiência. Entretanto, já há casos em que crianças entre 5 e 7 anos de idade se entenderam muito bem com os equipamentos, e que, com pouco treino, já estão tocando o terror.
Os desafios estão em encontrar aplicativos e jogos educativos que este segmento de pequenos consigam manusear, já que assim como na WEB, as agências de mídia e desenvolvedores de jogos estão pouco se preocupando com este grande público de pequenos.
Neste sentido os pais devem estar atentos e compartilhar as descobertas entre si, porque até o momento a tecnologia é escassa nas instituições ligadas à reabilitação das pessoas com deficiência visual e também porque em vários casos os profissionais que atendem os pequenos estão pouco ou nada familiarizados com a tecnologia, além de muitos ainda alimentarem um medo de que a tecnologia suplante o braile.
Isto é preocupante porque as crianças sem deficiência estão aderindo em massa às novas tecnologias e esta é uma área em crescimento, ao passo que o mesmo não é verdadeiro em relação às crianças com deficiência. Em breve o processo educacional pode vir a se basear em tecnologias como tablets, enquanto a criança com deficiência ainda estará quatro gerações atrás, colocando papel em máquina de escrever mecânica, por causa de processos educacionais conservadores, mas sem razão de ser.
Não, amigos, eu não quero abolir o braile, mas eu queria deixar claro que a tecnologia não vai acabar com ele, por dois motivos muito importantes: o braile é a melhor forma de ensinar a criança a ler e é a forma mais fácil de deixar algumas coisas acessíveis.
Ao mesmo tempo é importante dizer: não teremos material braile (impresso em papel) abundante nem hoje nem em qualquer outro momento histórico. Não teremos jornais, enciclopédias ou dicionários braile em todas as escolas, e os livros didáticos vão continuar chegando depois que a criança termina o ano escolar, por que não é barato nem fácil editar, imprimir, embalar, transportar e armazenar este material. Depois que a criança terminar aquele ano, o próximo precisará de material atualizado e a novela recomeça.
Aceitemos o quanto antes que às pessoas com deficiência têm o direito de escolher a tecnologia que lhe convier no momento em que lhe aprouver, seja braile, soroban, computador ou tablet. Tem que ser apresentado e ensinado, e a escolha tem que ser sempre da pessoa que precisa do recurso e não de qualquer profissional, mesmo que ele seja um mastodonte da educação, porque cada ser humano é PHD em suas próprias limitações.
Agora, se a crise permitir, vá comprar o tablet do moleque!

Vamos preparar as crianças para a vida?

Atualmente, os pais estão criando os filhos na base do mimo, muitas vezes, por não conseguirem tempo suficiente para ficar com eles, agradando-os demais quando estão por perto, dando-lhes tudo o que pedem, deixando passar as birras e os momentos de mal criação.

Quando se trata de crianças com deficiência esse mimo é muito maior, numa mistura de super proteção e excesso de carinho, resultando em crianças que fazem birra por tudo e se frustram quando não conseguem algo.

Os mesmos pais que fazem tudo para que seus filhos não errem, se machuquem, se frustrem ou se aborreçam, fazendo deles o centro das atenções, podem estar criando adultos mal educados, que não aceitam as diferenças e as opiniões das outras pessoas.

Pais de pessoas com deficiência, normalmente confundem limitações com dependência, adotando uma postura superprotetora, que pode até afetar a pessoa intelectualmente.

As crianças com deficiência devem respeitar limites e regras como todas as outras, assim como devem (sempre que possível), passar pelas mesmas experiências, tanto boas, quanto ruins, para que se tornem adultos capazes de viver em sociedade.

Colando Grau ou pagando mico?

Gostaria de dizer que aqui eu vou descer o sarrafo, para quem quiser saber sobre a emoção, o quanto me sinto feliz e toda a parte emocional visite meu Facebook, lá você vai ver tudo isso, e sim foi o máximo!

Eventos sociais são no mínimo problemáticos para nós, pessoas cegas.

Não, eu não estou dizendo que uma pessoa cega seja antissocial e que não deve comparecer em eventos deste tipo, mas em situações meio ritualísticas como casamento, cerimônias religiosas, formaturas e eventos em que se espera certos comportamentos “Padronizados”, que exigem imitação, fazemos parte de um grupo de pessoas que invariavelmente paga grandes micos.

A bola da vez foi o mico que paguei esta semana entrando na minha colação de grau usando capelo (um chapel quadrado com uma cordinha do lado esquerdo que os formandos normalmente usam), por que ninguém me informou que só se usa capelo quando ocorre a outorga de grau, ou seja, quando você está oficialmente formado.

Tá. Isso não foi aquele mico, mas eu já estive em lugares onde era necessário se sentar depois que era dado um sinal. Claro, eu fui o único a ficar de pé e isso senhores e senhoras, não é agradável.

Não dá para entender por qual motivo as pessoas não são um pouco mais descritivas. Já que Audiodescrição pode não ser viável, informar as pessoas com deficiência antes da cerimônia sobre as etapas e combinar os procedimentos corretos para que ela não se sinta perdida é bem barato sabe?

Para você amigo leitor, isto pode não ser algo importante, mas a autoestima do ser humano é um fator frequentemente deixado de lado em situações como esta.

Os seres humanos são criaturas que vivem em busca de se enquadrar em algum grupo, vivem buscando fazer parte de algo e normalmente se frustram quando isto não acontece.

As pessoas que não tem deficiência agem por imitação e quando uma pessoa faz algo as outras à acompanham.

A pessoa cega não tem esta prerrogativa e não consegue imitar as outras pessoas visualmente, então é importantíssimo que as coisas sejam previamente combinadas e explicadas para que não continuemos fazendo papel de bobos em locais e eventos públicos.

No caso a cima, se não fosse meu sogro me avisar eu ficaria todo bonitão de capelo até que o mestre de cerimônia falasse “Agora os formandos podem colocar os capelos, que simboliza a outorga de grau e diz que agora vocês são profissionais Bacharéis, licenciados e tecnólogos”.

Nada por nós, sem nós. pelo a mor de deus!

Nunca a frase “Nada por nós, sem nós”, fez tanto sentido para as pessoas com deficiência quanto nos tempos em que vivemos. Cada vez mais adquirimos direitos, deveres, oportunidades e um monte de contas para pagar, mas mesmo assim, ainda há quem queira decidir por nós.

São pessoas, que embora tenham uma enorme “Boa Intenção”, acham que sabem o que é melhor para a pessoa com deficiência, tentando “adivinhar” o que ela precisa, seus desejos, suas vontades, suas limitações e frequentemente oprimem suas capacidades, fazendo com que estas pessoas passem, de fato a depender dos achismos do outro.

Em vários casos, a limitação física real não é a mesma que o “bem-intencionado” acredita que a pessoa tem, supervalorizando a limitação do outro e ignorando as próprias, o que atrapalha o desenvolvimento social, educacional e psicológico da pessoa com deficiência, fazendo-as acreditar que são menos capazes do que realmente são, limitando-as de forma inconsciente a uma condição de eterna inferioridade psicológica e social, da qual normalmente a pessoa nem desconfia.

Dos poucos capazes de entender e se rebelar, muitos são alvo de críticas. E por não se enquadrar no panorama pacífico relatado nos parágrafos anteriores, são tomados como rebeldes, pessoas com deficiência revoltadas e que não são como o fulaninho, o beltraninho que são tão bonzinhos.

O Blog Inclunet vai mostrar, a partir de hoje que uma moeda tem dois lados, mas continua sendo uma só.

Seminário Sistema Braille: Mãos à Obra!

Ontem participei do Seminário Internacional do Braille, promovido pela Organização Nacional de Cegos do Brasil (ONCB) em conjunto com a União Latino Americana de Cegos (ULAC).

Durante o evento, diversas palestras discutiram a importância do Braille na educação e na sociedade.

A importância do Braille para a educação foi bastante destacada, visto que atualmente novas tecnologias aparentemente tem tomado parte do seu espaço.

Na fase de alfabetização o sistema Braille é indispensável, com ele a criança tem acesso às letras, aprendendo a ortografia e compreendendo aquilo que está lendo.

Um fato que chamou bastante a atenção de forma negativa é que algumas pessoas foram desrespeitosas, tanto com o público, quanto com os palestrantes. Algumas pessoas não paravam de conversar, mexiam no celular sem fones de ouvido, atendiam ligações sem a menor discrição e alguns riam quando o palestrante era estrangeiro.

A maioria dos participantes era de educadores e parte deles tinha deficiência visual. Não dá para entender como pessoas lutam tanto por respeito sem respeitar as outras pessoas.