Colando Grau ou pagando mico?

Gostaria de dizer que aqui eu vou descer o sarrafo, para quem quiser saber sobre a emoção, o quanto me sinto feliz e toda a parte emocional visite meu Facebook, lá você vai ver tudo isso, e sim foi o máximo!

Eventos sociais são no mínimo problemáticos para nós, pessoas cegas.

Não, eu não estou dizendo que uma pessoa cega seja antissocial e que não deve comparecer em eventos deste tipo, mas em situações meio ritualísticas como casamento, cerimônias religiosas, formaturas e eventos em que se espera certos comportamentos “Padronizados”, que exigem imitação, fazemos parte de um grupo de pessoas que invariavelmente paga grandes micos.

A bola da vez foi o mico que paguei esta semana entrando na minha colação de grau usando capelo (um chapel quadrado com uma cordinha do lado esquerdo que os formandos normalmente usam), por que ninguém me informou que só se usa capelo quando ocorre a outorga de grau, ou seja, quando você está oficialmente formado.

Tá. Isso não foi aquele mico, mas eu já estive em lugares onde era necessário se sentar depois que era dado um sinal. Claro, eu fui o único a ficar de pé e isso senhores e senhoras, não é agradável.

Não dá para entender por qual motivo as pessoas não são um pouco mais descritivas. Já que Audiodescrição pode não ser viável, informar as pessoas com deficiência antes da cerimônia sobre as etapas e combinar os procedimentos corretos para que ela não se sinta perdida é bem barato sabe?

Para você amigo leitor, isto pode não ser algo importante, mas a autoestima do ser humano é um fator frequentemente deixado de lado em situações como esta.

Os seres humanos são criaturas que vivem em busca de se enquadrar em algum grupo, vivem buscando fazer parte de algo e normalmente se frustram quando isto não acontece.

As pessoas que não tem deficiência agem por imitação e quando uma pessoa faz algo as outras à acompanham.

A pessoa cega não tem esta prerrogativa e não consegue imitar as outras pessoas visualmente, então é importantíssimo que as coisas sejam previamente combinadas e explicadas para que não continuemos fazendo papel de bobos em locais e eventos públicos.

No caso a cima, se não fosse meu sogro me avisar eu ficaria todo bonitão de capelo até que o mestre de cerimônia falasse “Agora os formandos podem colocar os capelos, que simboliza a outorga de grau e diz que agora vocês são profissionais Bacharéis, licenciados e tecnólogos”.

Autor: Leonardo Gleison Ferreira

Leonardo Gleison Ferreira é Técnico em tecnologia assistiva da Laramara, Graduado em análise e desenvolvimento de sistemas, pós graduando em marketing, atualmente ministra aulas de educação tecnológica para jovens com deficiência visual e faz parte do grupo de especialistas em acessibilidade do CEWEB/W3C.br.

1 pensamento em “Colando Grau ou pagando mico?”

  1. Excelente texto! ”Mandou” muito bem!
    E sabe o que acho? Que a universidade deveria disponibilizar para as pessoas cegas , que colam grau em cerimônia oficial, um acompanhante. Esse acompanhante seria responsável por treinar e ensaiar o formando cego nas etapas da cerimônia, e ficar ao seu lado para cutucar e sussurrar: ”Hora de sentar”, ”Hora de levantar”, ”Hora de pôr/tirar certo acessório”, etc. Seria muito legal! E isso, sim, seria inclusão e acessibilidade para o formando, sem que este passe por constrangimentos desnecessários…

    No mais, parabéns pelo post! Forte abraço!

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